O que me interessa no amor, não é apenas o que ele
me dá, mas principalmente, o que ele tira de mim: a carência, a ilusão
de autossuficiência, a solidão maciça, a boemia exacerbada para suprir
vazios. Ele me tira essa disponibilidade eterna para qualquer um, para
qualquer coisa, a qualquer hora. Ele apazigua o meu peito com uma lista
breve de prós e contras. Mas me dá escolhas. Eu me percebo transformada
pelo que o amor tirou de mim por precisar de espaço amplo e bem cuidado
para se instalar. O amor tira de mim a armadura, pois não consigo
controlar a vulnerabilidade que vem com ele; tira também a
intransigência. O amor me ensina a negociar os prazos, a superar etapas,
a confiar nos fatos. O amor tira de mim a vontade de desistir com
facilidade, de ir embora antes de sentir vontade, de abandonar sem saber
por quê. E é por isso que o amor me assombra tanto quanto delicia.
Porque não posso virar as costas pra uma mania quando ela vem de uma
pessoa inteira. Porque eu não posso fingir que quero estar sozinha
quando o meu ser transborda companhia. O amor me tira coisas que eu não
gosto, coisas que eu talvez gostasse, mas me dá em dobro o que nunca
tive: um namoramento por ele mesmo. O amor me tira aquilo que não serve
mais e que me compunha antes. O amor tirou de mim tudo que era falta.
28 de jun. de 2012
27 de jun. de 2012
Antes que seja tarde
Se não fosse tão covarde acho que o mundo seria um lugar melhor pra viver.
Não que o mundo dependa só de mim para ser melhor, mas se o medo não
fosse constante ajudaria as milhares de pessoas que agem pelo mundo como
centelhas tentando criar uma labareda que incendiasse de entusiasmo a
humanidade. Mas o que vejo refletido no espelho é um homem abatido
diante das atrocidades que afetam as pessoas menos favorecidas.
Porque se tivesse coragem não aceitaria as crianças passarem fome, frio e
abandono nas calçadas, essas que parecem fantasmas, nos assustam nos
semáforos com armas na mão, nos pedem esmolas amontoadas em escolas que
não ensinam, e por mais que elas chorem, somos imunes a essas lágrimas.
Você acha que se realmente tivesse coragem aceitaria uma pessoa
subjugar a outra apenas pela cor da sua pele? Do seu cabelo? Um poema é
quase nada disso tudo.
Sou um covarde diante da violência contra a
mulher, da violência do homem contra o homem que só no Brasil são 50000
deles arrancados à bala do nosso pacífico planeta. Que dizer da
violência contra os homossexuais que são apedrejados nas calçadas das
avenida elegantes?
E se tivesse mais fé na minha humanidade de
maneira alguma aceitaria que um Deus fosse melhor que o outro, mas sou
tão covarde que nem religião tenho, e minhas mãos que não rezam, já que
estão abertas, poderiam ajudar a construir um templo onde caberiam
todas elas, mas eu que não tenho fé nem em mim mesmo sou incapaz de
produzir esse milagre. De repartir o pão.
E porque os índios estão
tão longe da minha aldeia e suas flechas não atingem meus olhos nem meu
coração, não me importo que lhe tirem suas terras, sua alma, seus rios, e
analfabeto de solidariedade não sei ler sinais de fumaça, eles fazendo
guerra eu fumando o cachimbo da paz. Se tivesse um nome indígena seria
cachorro medroso.
Se fosse o tal ser humano forte que alardeio por
aí, não concordaria em aceitar famílias inteiras sem onde morar, vagando
em busca de terra, ou morando em barracos de madeiras indignas
pendurada nos morros, ou na beira de córregos. Não nasci na favela, mas
,eu coração é de madeira, fraco.
A lei condena um homem comum que
rouba outro homem comum e o enterra na masmorra moderna, mas nada faz
contra aquele político corruto que rouba milhares de pessoas apenas com
uma caneta, ou duas, e que de quatro em quatro anos a gente aperta-lhes a
mão, quando na verdade devíamos cuspir-lhes na cara. E eu como um juiz
sem martelo não faço nada além de condená-lo ao meu não voto. É pouco,
já que sei onde eles se entocam. A lei é cega, mas acho que lhe fizeram
transplante de órgãos numa dessas votações secretas.
Assisto a
falência da educação e o massacre contra os professores e sei que muitas
vezes o resultado de ensino de qualidade mínima é presídio de segurança
máxima, fico em silêncio quando a multidão desinformada pede redução da
maioridade penal, porém, mal ela sabe que se não educarmos nossas
crianças vão ter que prendê-las com 16 anos, depois 14, depois 12,
depois, não teremos mais crianças nas ruas. E elas, as ruas, serão tão
seguras que a gente vai sentir falta das crianças. Época em que os
brinquedos serão visitados nos museus.
Estão cortando as árvores,
cortand as árvore, cortan a árvore, cort árv, co á... madeiraaaaa! E
aceito a cara-de-pau dos donos das serras elétricas e sei que o machado
está nas minhas mãos. Depois fico abraçando o lago poluído quando na
verdade deveria estar mergulhado nele, assim como os peixes mortos.
Pagos os meus impostos e sei que eles não fazem nada com eles, ainda
assim faço propaganda da minha consciência tranquila. Desconfio que é
essa tal consciência tranquila que está acabando com o mundo.
Calado
assisto a falsa democracia deste país ilegal, sem alvará de
funcionamento e sem licença pra ser pátria, e me emociono com o hino
nacional cantado antes do jogo da seleção canarinho.
Perdoe-me por
apenas ser poeta, e ter apenas poemas como arma, ainda que ninguém me
diga, sei que isso é muito pouco, quase nada. O sangue que pulsa na veia
tinha que estar nos olhos.
O Mundo gosta das pessoas neutras, mas só respeita as que tem atitude. Se não posso mudar o mundo deveria a mudar a mim mesmo.
Acho que é isso que vou fazer agora.
Antes que seja tarde.
Sérgio Vaz
8 de jun. de 2012
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