7 de dez. de 2012

:(

Minha intenção nunca foi ir tão longe. Enquanto eu juntava as minhas coisas e tentava arrumar a bagunça do meu quarto, era isso que eu pensava. Você sabe, eu sempre te falei mil vezes que esse mundo quebra meus ossos de uma maneira insuportável e que eu não sou tão forte quanto pareço. O vento entrava freneticamente pela minha janela e eu estranhei, porque o meu quarto é o cômodo dessa casa que menos circula ar por alguma razão desconhecida. E pensando no vento, no mundo e em você, eu só conseguia pensar que não podia ter ido tão longe. Longe, no sentido de me afundar como se eu tivesse oxigênio suficiente para nunca subir à superfície. Eu me perdi tanto em você que esqueci que precisava respirar, precisava puxar ar com força. Mas minha convicção interior sempre me disse que segurar sua mão era o suficiente. Bobagem, isso é pura ficção melodramática. Segurar sua mão era o que eu mais queria, mas se eu não respirasse, eu só te puxaria para baixo comigo nesse desespero que toma conta das pessoas que estão se afogando.
Eu só consigo pensar nisso agora, antes eu estava cega demais para enxergar. Agora que você já disse não pensar tanto, meu peito fica meio corroído enquanto eu tento puxar o ar. Parece que existem bilhões de marimbondos picando cada pedaço do meu pulmão enquanto eu guardo minhas coisas e depois fico deitada abraçando aquele urso de pelúcia que tem o nome que você escolheu. Tem sido difícil respirar. O urso tem o meu cheiro e isso me dá vontade de chorar porque meu cheiro sempre foi o seu favorito e eu fico enjoada quando penso nas noites que o telefone ficava na cabeceira da cama e tudo que você queria era deitar e ver o Sol nascer. Em silêncio. Eu me sentia completa e você se sentia também. Eu sei porque você disse que essa é uma das melhores lembranças que você tem de nós. E eu ainda tenho tentado entender o que de tão errado que eu fiz para tirar os trilhos do trem. Fico repetindo nossos passos, correndo atrás de migalhas pelo caminho e minha mente me deixa tonta de tanto pensar. Eu nunca queria que tivesse passado. Achei que era para ficar. Porque aquela loucura do amor, aquela febre, aquela vontade de morrer de ciúmes e depois morrer de paixão, era aquilo que nos alimentava. E agora, sem nenhum pensamento pela manhã, sem nenhum plano ou declaração, nós estamos pisando descalços nesse chão cheio de cacos de vidro. E isso está me machucando muito.
Eu poderia te pedir para me pegar no colo e me colocar deitada na grama. Eu poderia e eu queria muito fazer isso. Mas eu não tenho direito disso mais. Não me sinto no direito de nada. Fico ouvindo sua respiração silenciosa como se você estivesse dizendo alguma coisa importante e agora, eu já não consigo mais dizer nada. Só fico quieta. Não quero te pedir para ficar, mas eu quero que você fique. Só que eu também não quero que continuemos andando nesse chão que já se sujou tanto com nosso sangue. Eu sinto uma fraqueza enorme enquanto eu olho para seu rosto pálido, sua boca vermelha e sua tristeza infinita. Eu não sei bem o que poderemos fazer. Não sei te libertar desses demônios que nos cercam, não sei destruir esse buraco-negro sozinha. Eu preciso da sua ajuda. Você precisa da minha também. Mas temos que atravessar esse caminho de cacos e depois procurar nosso pedacinho de ouro no meio do ferro-velho. Eu só faço metáforas ruins, mas está tudo dolorido.
Eu ainda quero nossa salvação.