16 de jun. de 2015

A diferença.

Amores são como anéis. Ainda mais se você pensar na frase “vão-se os anéis ficam os dedos”, não é?
E tudo o que eu quero deles é a honestidade. Nada pior do que um anel de vidro que tenta se passar por diamante, como uma paixão ilusória disfarçada de amor verdadeiro. Bijuteria ou joia. Quer saber? Nenhum dos dois é melhor do que o outro. São coisas completamente diferentes com algo em comum: eles são honestos. O anel de diamante vai durar para sempre, se você topar bancar o alto investimento. Já o anel de vidro vai deixar claro sua qualidade frágil e efêmera.
Se apaixonar pelo anel de vidro é simples e até libertador. A gente sabe exatamente o que vai levar. O mesmo anel vai desfilar por aí com mais 2.349 mulheres. Tudo bem, ele não nos prometeu exclusividade. Ele vai permanecer brilhante quase uma estação inteira e, ao final do outono, a cor já vai ter desbotado e a pedra estará arranhada. O fim do inverno é também o fim daquele anel (ou seria amor?) que, na primeira queda ao chão, se espatifou em mil pedaços. Ele pode até ter cortado a pele de raspão e feito sangrar por alguns minutos. Mas tudo bem, a gente sabia que não iria durar muito. Aquele anel não vinha com a promessa de nos acompanhar por anos em aventuras desvairadas, noites insones de inverno ou dias preguiçosos sob o sol. Muito menos vinha com a proposta de amor eterno. A gente sabia que era passageiro. Coisa de momento que se transformaria em uma linda memória.
Dor mesmo é acreditar na ilusão do diamante que, no final das contas, era de mentira. É aquele que nos engana, nos faz de boba, brinca com a gente. Nos faz investir todo tempo e esforço para conquistar aquele brilho, aparentemente, inapagável. O diamante (e o amor) de mentira vai nos virar do avesso, nos fazer sentir especial até darmos os primeiros passos com ele e perceber que ele desfila com mais duas mulheres na festa, também iludidas pela exclusividade que ele prometeu. E percebemos que não somos a única. E nem a mais estilosa, afinal, vamos admitir, ele combina muito mais com a morena tatuada de cabelos curtos do que com a gente.
Entre joias ou bijuterias, prefiro aquilo que não imita nada. Aquilo que é exatamente o que se propõe. Porque tem dias que um anel descartável ou um amor passageiro é tudo que a gente precisa. E outros que o investimento vale a pena para levar um companheiro de aventuras ao nosso lado, entrelaçado em nossos dedos pelo resto de uma vida ou, pelo menos, grande parte dela.

9 de jun. de 2015

Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?

PAULO LEMINSKI

Simplesmente aconteceu
Não tem mais você e eu
No jardim dos sonhos
No primeiro raio de luar
Simplesmente amanheceu
Tudo volta a ser só eu

4 de jun. de 2015

ENTÃO ESCUTA!


Eu sei o autor desse texto...

Começou quando eu falei algo parecido com “gosto tanto de você que queria te colocar num potinho”. Era só um comentário sobre querer cuidar e te ter sempre por perto, mas aí as coisas foram mudando.
Passei a não me reconhecer mais direito. Sem algum motivo aparente, pouco a pouco vi o meu carinho se transformar num desejo incontrolável de algo parecido com posse. Eu precisava saber com quem você estava e o que estava falando; eu precisava ler suas mensagens recebidas; eu precisava saber dos seus horários e me colocar acima de tudo; eu precisava saber quem estava perto de você quando eu não estava. Eu não sei, que saco! Eu comecei a me desesperar só de pensar na possibilidade de te perder, então encontrava maneiras para saber quais seriam seus passos para que eu pudesse estar perto de cada um deles. Já me perdi em quantas vezes investiguei os likes em suas fotos e quantas horas passei vendo as fotos das pessoas que curtem as suas. Um lado de mim dizia que tudo isso era uma loucura desenfreada, o outro, porém, repetia dentro da minha cabeça que a única maneira para eu não me machucar era identificar o quanto antes qualquer ameaça sobre nós dois.
E eu nunca me orgulhei disso. Sempre me senti idiota ao sentir o coração explodir quando seu celular recebia alguma notificação. Eu nunca gostei de ver a lista de pessoas que interagem com você. Só que eu, bem, eu não conseguia fazer diferente. Eu não conseguia lidar comigo mesmo.
Isso tudo não tem a ver com desconfiança sua, é sobre mim, é sobre minhas paranoias e minhas manias de acreditar que o mundo vai conspirar para as coisas darem errado comigo. Eu que me sentia inseguro e incapaz de dormir em paz com você ao meu lado, e o pior, as coisas que me aterrorizaram eram coisas que só eu via. Perguntava para alguns amigos se meus motivos para ter essas crises eram reais, só que antes de qualquer um deles responder eu argumentava de uma maneira tão convincente que não cabia chance de eu estar errado; eu nunca parei pra pensar que eu os vencia pelo cansaço e não pela razão.
No fundo da minha cegueira eu só enxergava as coisas que eu queria, não as que de fato aconteciam.
“É claro que você vai me largar, ele é tão mais bonito que eu”, “olha como ele é gentil”, “eu nunca vou parecer um cara desses”, era o tipo de coisa que me tirava o sono. Ecoava dentro de mim esses julgamentos que eu fazia de mim mesmo. Eu sempre me comparava com as pessoas que você convivia e, em quase todas as vezes, eu me sentia pior. Me sentia menos bonito, menos inteligente, menos atraente, menos o suficiente pra você. E o ciclo só piorava dia após dia. Daí eu voltava a investigar seus amigos na internet, lia suas mensagens escondido, criava motivos pra gente brigar; eu nunca percebi como fazia tudo errado.
Te quis tanto só pra mim que hoje entendo você não estar mais aqui.
Eu reconheço todos os meus excessos, justifico as minhas loucuras pelo meu medo injustificável de sofrer e te perder. Esqueci de te admirar, de te deixar livre pra viver e aproveitar. Esqueci de te ouvir dizer seus planos enquanto eu te ocupava reclamando. Esqueci de planejar coisas boas pra gente enquanto fiscalizava perigos que só eu enxergava. Preocupado em te manter por perto, esqueci de te dizer o quanto você me fazia bem. Começou quando eu falei algo parecido com “gosto tanto de você que queria te colocar num potinho”. Até que esse potinho quebrou e hoje me deixa aqui colhendo os pedaços do que sobrou.
Eu me perdi com medo de te perder.

3 de jun. de 2015

Fauzi Arap

Eu vou te contar que você não me conhece,
E eu tenho que gritar isso porque você está surdo e não
Me ouve.
A sedução me escraviza a você
Ao fim de tudo você permanece comigo mas preso ao que
Eu criei
E não a mim.

E quanto mais falo sobre a verdade inteira um abismo
Maior nos separa.
Você não tem um nome, eu tenho.
Você é um rosto na multidão e eu sou o centro das
Atenções.

Mas a mentira da aparencia do que eu sou,
E a mentira da aparencia do que você é.
Porque eu,
Eu não sou o meu nome,
E você não é ninguém.

O jogo perigoso que eu pratico aqui,
Ele busca chegar ao limite possível de aproximação,
Através da aceitação da distância e do reconhecimento
Dela.

Entre eu e você existe
A noticia que nos separa
Eu quero que você me veja nu
Eu me dispo da noticia
E a minha nudez parada
Te denuncia e te espelha
Eu me delato
Tu me relatas
Eu nos acuso e confesso por nós
Assim me livro das palavras
Com as quais
Você me veste.