13 de dez. de 2011

Eu não só amo, mas também desesperadamente. Meu cabelo é exaltado e levado pelo vento que bate sem piedade, e eu me torno ventania colada à porta do carro. A estrada podia ser você, para eu me jogar. Para eu ser real de novo e mais pesada que o vento, ser largada no asfalto quente enquanto beijo sua boca minha. Para diminuir a velocidade - a da vida - que me empurra para longe, que nos empurra para longe desde que nascemos. Para ser águia ou ter força o bastante para encontrá-lo a dois segundos. A dois míseros pedaços de tempo que nem fariam falta, mas que nos salvariam da saudade.

A bagagem vai vazia de gente e eu só tenho você. O calor ainda cresce, o sol sobe para o meio-dia. As árvores vão fugindo dessa promessa de tocar, cada uma mais medrosa que a outra, e eu nem conto suas folhas secas. Os faróis eu deixo desligados, e desligo a música. Eu queria encontrá-lo nesse espaço em braço que pode ligar duas cidades. Eu não só vento, mas também enlouquecidamente. Viajo nos braços do ar enquanto apenas sou eu sentada no banco desconfortável, morta de percepções incrédulas sobre você estar aqui e do outro lado ao mesmo tempo. Também bebo o próprio choro. Eu anoiteço ao meio-dia limpo por você.

7 de dez. de 2011

Amados

Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.

Demorei

Demorei muito para acreditar na mais louca e cruel verdade: quem gosta de você vai te tratar bem. Quem gosta de você se importa, quer o melhor, te procura, te liga, te dá satisfação. Quem gosta quer estar junto. Quem gosta demonstra. Quem gosta faz planos. Quem gosta apresenta para a família e amigos. Quem gosta manda uma mensagem bobinha só pra dizer que ama. Quem gosta carrega uma foto sua dentro da carteira pra ver quando dá saudade. Quem gosta abraça na hora de dormir. Quem gosta dá um beijo de boa noite e de bom dia. Quem gosta aguenta suas reclamações, sua cólica infernal, suas manhas e manias.
Eu nunca fui uma moça bem-comportada.
Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida,pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal resolvido sem soluços.
Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo.Não estou aqui pra que gostem de mim.Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho.E pra seduzir somente o que me acrescenta.
Adoro a poesia e gosto de descascá-la até a fratura exposta da palavra.
A palavra é meu inferno e minha paz.
Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que me deixa exausta.
Eu sei sorrir com os olhos e gargalhar com o corpo todo.
Sei chorar toda encolhida abraçando as pernas.
Por isso, não me venha com meios-termos,com mais ou menos ou qualquer coisa.Venha a mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar...
Eu acredito é em suspiros,mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis,em alegrias explosivas, em olhares faiscantes,em sorrisos com os olhos, em abraços que trazem pra vida da gente.
Acredito em coisas sinceramente compartilhadas.
Em gente que fala tocando no outro, de alguma forma,no toque mesmo, na voz, ou no conteúdo.
Eu acredito em profundidades.
E tenho medo de altura, mas não evito meus abismos.
São eles que me dão a dimensão do que sou."
Maria de Queiroz

5 de dez. de 2011

Nando Reis

"... Amor eu sinto a sua falta

E a falta é a morte da esperança

Como um dia que roubaram seu carro

Deixou uma lembrança

Que a vida é mesmo coisa muito frágil

Uma bobagem uma irrelevância

Diante da eternidade do amor de quem se ama

Por onde andei enquanto você me procurava?

E o que eu te dei? foi muito pouco ou quase nada

E o que eu deixei? algumas roupas penduradas

Será que eu sei que você é mesmo tudo aquilo que me

faltava?..."

1 de dez. de 2011

Quintana

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...