23 de abr. de 2015

Tati

Eles se amam. Todo mundo sabe mas ninguém acredita. Não conseguem ficar juntos. Simples. Complexo. Quase impossível. Ele continua vivendo sua vidinha idealizada e ela continua idealizando sua vidinha. Alguns dizem que isso jamais daria certo. Outros dizem que foram feitos um para o outro. Eles preferem não dizer nada. Preferem meias palavras e milhares de coisas não ditas. Ela quer atitudes, ele quer ela. Todas as noites ela pensa nele, e todas as manhãs ele pensa nela. E assim vão vivendo até quando a vontade de estar com o outro for maior do que os outros. Enquanto o mundo vive lá fora, dentro de cada um tem um pedaço do outro. E mesmo sorrindo por aí, cada um sabe a falta que o outro faz. Nunca mais se viram, nunca mais se tocaram e nunca mais serão os mesmos. É fácil porque os dias passam rápidos demais, é difícil porque o sentimento fica, vai ficando e permanece dentro deles. E todos os dias eles se perguntam o que fazer. E imaginam os abraços, as noites com dores nas costas esquecidas pelo primeiro sorriso do outro. E que no momento certo se reencontrem e que nada, nada seja por acaso.
— Tati Bernardi.    

22 de abr. de 2015

E eis que aquela nuvem finalmente ficou cinza e carregada a ponto de cair a maior das chuvas. Afinal, muita coisa mudou de um tempo pra cá. Todos aqueles sentimentos ruins de guardar, toda a angústia e tristeza evaporaram com o calor e acabaram contaminando a chuva que hoje cai sobre sua cabeça. Se eu sempre guardei estes sentimentos aqui, foi justamente porque eram perigosos demais para te devolver, mesmo sabendo que foram teus canos que os despejaram em meus rios. Entretanto, tudo isso que eu deixei escapar de minhas mãos está no ar agora. Guarda chuva vai a 10. Cobre a cabeça pois a chuva será forte, barulhenta e ácida.

20 de abr. de 2015

Sensibilidade

Nós estamos tão ocupados, meu deus, que nem vemos como as luzes do céu misturam-se. São cinco cores, notei hoje: azul escuro, azul claro, laranja avermelhado, laranja e amarelo. Mas nós nem vemos que o céu às vezes gostaria de ser notado, assim como as estrelas que caem e nem sentimos. “uma estrela pinga no meu peito” eu li algum dia desses. Estamos tão imunes à beleza da vida que ser louco, viver uma vida louca e ter a melhor bolsa de marca tornou-se prioridade. Pergunto-me aonde vamos parar quando o uniforme das pessoas que convivem comigo é lacrado pela marca hollister, ou quando a poesia fica escassa àqueles que veem o minúsculo do minúsculo ou até mesmo quando o corpo é usado como objeto e admirado como tal - porra, museus existem, eu penso. As ciganas, acreditem, sabem mais do que os escritores. As prostituas refletem a razão segundo sartre enquanto clientes, como nós, beiramos a ignorância e beijamos o fim, com a morte na saliva. Estamos tão podres e amassados pelo sistema que nossos olhos desacostumaram-se a enxergar a luz do meio-dia, as flores que morrem murchas e sozinhas, o frio que congelou mais alguém em algum lugar do planeta. Eu acho que perdi o rumo do caminho quando eu vejo que meus colegas preferem gritar enquanto eu gosto de silêncio; quando todos querem ficar e eu desejo ir embora; quando todos falam de amor e eu não quero tê-lo comigo… em mim.
Sensibilidade aqui, ainda existe?
Talvez ao contar histórias, por pior que sejam, não deixemos de pertencer a elas. Elas se tornam nossas. E talvez amadurecer signifique que você não precisa ser personagem seguindo um roteiro. É saber que você pode ser a autora.

16 de abr. de 2015

Máscara

As máscaras, em sua maioria, possuem dois buracos para os olhos, pra que, mesmo quando não queremos que o mundo veja nosso rosto, possamos, mesmo assim, enxergar. O resultado disso tudo é que conforme os anos vão passando, as pessoas vão percebendo quão cômodo é esconder a fisionomia que chegam ao absurdo de acreditar que não vale a pena presentear o mundo com a transparência de um rosto limpo. PAPO.
O que as pessoas não percebem é que são justamente os olhos que acabam com todo o mistério de uma máscara. Os olhos estão e estarão para sempre lá. E eu, da mesma forma que você, já aprendi a olhar através desse entrave visual que usa, a sacar estes olhos tristes que estão logo acima do sorriso radiante.
A gente precisa mudar para que cada vez mais possamos nos tornar nós mesmos.

15 de abr. de 2015

Caio F. Abreu

Me entende, eu não quis, eu não quero, eu sofro, eu tenho medo, me dá a tua mão, entende, por favor. Eu tenho medo, merda! Ontem chorei. Por tudo que fomos. Por tudo o que não conseguimos ser. Por tudo que se perdeu. Por termos nos perdido. Pelo que queríamos que fosse e não foi. Pela renúncia. Por valores não dados. Por erros cometidos. Acertos não comemorados. Palavras dissipadas. Versos brancos. Chorei pela guerra cotidiana. Pelas tentativas de sobrevivência. Pelos apelos de paz não atendidos. Pelo amor derramado. Pelo amor ofendido e aprisionado. Pelo amor perdido. Pelo respeito empoeirado em cima da estante. Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa. Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados. Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa. Por tudo que foi e voou.
— Caio Fernando Abreu.

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A gente dá as costas para as emoções fortes em nome do êxtase, porque consideramos que o êxtase é o melhor. Não sabemos sentir o que é realmente importante e bom. Essa vontade estúpida de sair por aí querendo não perder nada acabou me fazendo perder tudo. Perder você, perder manhãs que eu podia ter acordado do teu lado, perder a ideia de passear contigo num parque, só soltando sua mão pra achar um trocado que pague uma coca-cola gelada. Sete anos é tarde demais pra chorar de saudade?
— Gabito Nunes