30 de dez. de 2010



"Por isso meu ódio cresce. Quando atingir um nível insuportável,não será difícil:basta uma lâmina contra o pulso, nem isso.Uma simples picada de alfinete.Menos até.Talvez aquele menino volte,talvez eu esteja mesmo sozinho, talvez você ache que eu esteja louco.Queria que você entendesse que apenas contei o que realmente aconteceu,e se isso é loucura,quem enlouqueceu foi o real,não eu, ainda que você não acredite.Não tem importância.A história é essa,talvez eu tenha falado mais que eu devia,Mas tenho uma certeza dura de que nem você nem os outros perdem por esperar.Cuidado:eles estão aqui:à nossa volta:entre nós:ao seu lado:dentro de você."


"Você vai me abandonar e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar o seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no quarto."

"Ainda que dentro de mim as águas apodreçam e se encham de lama e ventos ocasionais depositem peixes mortos pelas margens e todos os avisos se façam presentes nas asas das borboletas e nas folhas dos plátanos que devem estar perdendo folhas lá bem ao sul e ainda que você me sacuda e diga que me ama e que precisa de mim: ainda assim não sentirei o cheiro podre das águas e meus pés não se sujarão na lama e meus olhos não verão as carcaças entreabertas em vermes nas margens, ainda assim eu matarei as borboletas e cuspirei nas folhas amareladas dos plátanos e afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem me comove e que sua precisão de mim não passa de fome e que você me devoraria como eu devoraria você ah se ousássemos." - Caio F.
"(...)Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente."

"É dentro de você que o Ano Novo cochila
e espera desde sempre. "
E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível.

~ Camus

29 de dez. de 2010

Vou construir um muro das ruínas que deixei, para separar-me do que sinto, saudades intermináveis de ninguém. Atravessar a rua deserta de mãos dadas com o silêncio, ter como abrigo então o tempo, que devora a juventude de nós. Sair à noite como um tiro perdido capaz de alvejar qualquer lugar que se encontre na trajetória do olhar tímido afinal. Deletar dos meus futuros poemas os nome que nunca chamei. A rua é deserta para você e meu coração se tornou um ponto coletivo, onde não se tem ninguém a esperar a chegada desse teu ônibus de ilusões, trazendo aceso no letreiro, o endereço dessa rua que já fez sentido para nós, mas que não nos leva a mais nenhum lugar e agora só resta caminhar pela rua deserta de mãos dadas com o silêncio da nossa voz...

O primo Basílio





Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saia delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!