Esta música para esta manhã tão fria...
22 de ago. de 2012
15 de ago. de 2012
Não desligaaaaaaa!
“Vou até o Japão. Falo sério, não desliga o
telefone, não diz adeus agora, não estraga a minha súplica: não me corta
na hora errada. Eu me cortei, você sabe. Cortei lá dentro, mais do que
uma navalha poderia cortar. Cortei veia e artérias, esperanças e
histórias… Eu te cortei. Nós nos cortamos. Não, não chora… Por favor. Eu
não estou gastando dinheiro para chorarmos, mesmo que eu já tenha feito
isso de graça por mil dias desde aquele último. Nós nos cortamos porque
as pessoas são assim, erro de cálculo humano: elas se perdem e se
cortam diariamente. Cortes internos de uma tal maneira que o médico
semana passada disse que nunca me viu tão saudável. Ah, se ele soubesse…
Você não pensa no curativo? Eu penso, todos os dias. Eu tentei alguns,
vou confessar e, por favor, não quebre a caneta que você agora deve
estar usando para riscar fervorosamente a folha na sua frente enquanto
desconta a raiva da vida - de nós. Eu tentei com pessoas na minha cama,
com bebidas e cigarros entre os dedos, com um quase namoro fracassado,
com uma vida profissional bonita, com sonhos novos, com dias de
mendigagem: eu tentei. O curativo nunca esteve em nada disso. Que coisa
idiota eu ligar para falar de curativos, você tem razão de querer
desligar. Mas não, ainda não desliga. O curativo sempre foi você. A
caixinha de remédios da minha vida, e me perdoa o anti-romantismo, eu
não sei acertar palavras de amor que não firam. Só que agora eu quero
curar também. Deixar que você se cure dos meus maus, da minhas aventuras
pela vida quando nós deveríamos ter largado nossas mãos lado a lado, e
não nos largado. Deixa eu ser o antídoto para qualquer outro amor que vá
te fazer perder tempo, porque você sabe, eu sei, o seu cachorro sabe, o
meu peixei sabe: a gente não se desliga. Não é esse fio telefônico, a
conta no fim do mês ou uma tecnologia qualquer, somos nós, simples como
uma vida, desgraçados como o amor. Nós, estragando tudo para o
arrependimento querer curar. Se eu for o seu curativo, posso até me
curar por conta própria, mas eu quero te curar. Quero passar carinho
onde a vida deixou hematomas. E curará, acredite. Você ainda está na
linha? Ainda quer ouvir que andei achando nossas cartas? Quando foi que
paramos de nos escrever? Ah, claro… Quando as palavras deixaram de serem
ditas também em voz alta. Ficou muita coisa a ser escrita, feita e
falada. Ficou uma vida - a minha - para ser preenchida - com a tua. Até
falando eu tenho entrelinhas, não é? Você deve estar me odiando, como no
primeiro dia quando eu derrubei o sorvete na sua blusa preferida. Você
deve estar me odiando por não conseguir desligar, como no último dia
quando nos ouvimos chorar até faltar luz aqui e a ligação cair. Você me
tem na mão e eu não sei poetizar isso. Desculpa, amor, se eu me encho de
palavras e te esqueço respirando. Você, apenas respirando, já cura os
meus tempos ruins. Quer desligar? Eu sei que sim. O meu recado está
dado: se você fugir para o Japão, eu vou até lá. Vou até a esquina, até a
cidade vizinha, até o Equador, até o Japão! Eu vou indo, porque o meu
mapa quem traça é você. A minha vida quem regula são as suas mãos. Você
não entende… Agora pode desligar, se quiser. Quando me ouço falar também
me pergunto onde está a minha lucidez, não é só você que me detesta. No
meu fundo, no meu espaço perdido e ilógico, tão meu, eu desisti de
entregar os espaços em branco e passar mais álcool no que a história
deixou ardendo. Eu desisti de procurar nas pessoas um olhar apaixonado
que somente o espelho pode me mostrar, porque sou eu, é o meu reflexo
dizendo que eu moro em ti. Eu não vou ter dinheiro para pagar essa
conta, gastei tudo comprando o telefone para te ligar. São tantas
desordens em mim, pode balançar a cabeça e me reprovar. Em outra vida eu
posso ter feito medicina e a gente nem sabe… Tanto faz, você desligará.
É que, olha, eu senti saudades de me declarar…”
11 de ago. de 2012
Você me pediu um cigarro
“Você foi covarde. Seu amor é forte, seu corpo é
fraco. Você foi covarde como tantas vezes fui por acreditar que a
coragem viria depois. A coragem não vem depois. A coragem vem antes ou
não vem. Não posso amaldiçoar sua covardia. Sua boca não é rápida como
suas pernas para me agarrar. Minhas pernas não são tão rápidas quanto
minha boca para lhe impedir. Você foi covarde. Pela gentileza de sempre
dizer sim, repetidos sim, quando não estava ouvindo. Já desfrutei de sua
covardia, ríspido recusá-la agora porque não me favorece. Porque não
fui escolhido. Não aquecerei seu prato para servi-la. Não a ajudarei no
parto. Não partirei. Serei aquele que deveria ter sido, enterrado sem
morrer, o que desapareceu permanecendo perto. Sou seu constrangimento
mais alegre. Sua ferida, seu feriado. Com o tempo, serei sua vontade de
se calar. De se retirar da sala. Não conhecerá meus hábitos de puxar o
café antes de ficar pronto. De abrir as venezianas como quem procura
reunir os chinelos ao vento. Você foi covarde, ninguém iria
compreendê-la. Hoje todos a compreendem, menos você mesma. Você não se
compreende depois disso. O que é imenso é estreito. O que é infinito
fecha. Até o oceano tem becos e ruas sem saída. Até o oceano. Sua
esperança não diminui a covardia. Quer um conselho? Finge que a dor que
sente é a minha para entreter sua dor. Saudades ficam violentas quando
mudamos de endereço. Saudades ficam insuportáveis quando mudamos de
sentido. Você confunde sacrifício com covardia. Compreendo. Eu confundo
amor com loucura. Cada um tem seus motivos, sua maneira de se convencer
que fez o melhor, fez o que podia. Você me avisou que não tinha escolha.
Nunca teria escolha. Você foi educada com a vida, pediu licença,
agradeceu os presentes. Confiou que a vida logo a entenderia. E cederia.
Engoliu uma palavra para dormir. Não serei vizinho de seu sobrenome.
Seus nomes esperam um único nome que ficou para trás. Você não
desencarnou, não se encarnou, deixou sua carne parada nas leituras.
Morrer é continuar o que não foi vivido. Vai me continuar sem saber.
Você foi covarde. Com sua ternura pálida, seu medo de tudo, sua polidez
em cumprir as promessas. Você não aprendeu a mentir. Tampouco aprendeu a
dizer a verdade. O dia está escuro e não soprarei a luz ao seu lado. O
dia está lento e não haverá movimento nas ruas. Você não revidou nenhuma
das agressões, não revidará mais essa. Você foi covarde. A mais bela
covardia de minha vida. A mais comovida. A mais sincera. A mais
dolorida. O que me atormenta é que sou capaz de amar sua covardia. Foi o
que restou de você em mim.”
| — | Fabrício Carpinejar em Você me pediu um cigarro |
6 de ago. de 2012
18 de jul. de 2012
Para você, meu amor...
“Ajustei meu horário. Tudo esta conforme você fez
estar. As horas são mais felizes quando você chega e tristes enquanto te
espero. Os segundos mais rápidos são aqueles ao seu lado e os mais
lentos são os que faltam a sua voz. Cada minuto é seu, ao seu tempo e
caminhar, ao seu jeito e ao nosso par. Cada mudança brusca em que não
vejo o relógio passar, tem você me dizendo palavras de um futuro nosso.
Cada lágrima que faz o passar do tempo ser uma tortura, tem você longe
de mim por culpa nossa ou da vida. Passo o tempo para passar o tempo com
você, assim mesmo, com uma confusão gritante de palavras. É o meu
relógio, o meu jeito bobo e secreto de controlar a vida. As horas no teu
pulso desestabilizando o meu são muito mais bem aproveitadas.”
28 de jun. de 2012
O amor?
O que me interessa no amor, não é apenas o que ele
me dá, mas principalmente, o que ele tira de mim: a carência, a ilusão
de autossuficiência, a solidão maciça, a boemia exacerbada para suprir
vazios. Ele me tira essa disponibilidade eterna para qualquer um, para
qualquer coisa, a qualquer hora. Ele apazigua o meu peito com uma lista
breve de prós e contras. Mas me dá escolhas. Eu me percebo transformada
pelo que o amor tirou de mim por precisar de espaço amplo e bem cuidado
para se instalar. O amor tira de mim a armadura, pois não consigo
controlar a vulnerabilidade que vem com ele; tira também a
intransigência. O amor me ensina a negociar os prazos, a superar etapas,
a confiar nos fatos. O amor tira de mim a vontade de desistir com
facilidade, de ir embora antes de sentir vontade, de abandonar sem saber
por quê. E é por isso que o amor me assombra tanto quanto delicia.
Porque não posso virar as costas pra uma mania quando ela vem de uma
pessoa inteira. Porque eu não posso fingir que quero estar sozinha
quando o meu ser transborda companhia. O amor me tira coisas que eu não
gosto, coisas que eu talvez gostasse, mas me dá em dobro o que nunca
tive: um namoramento por ele mesmo. O amor me tira aquilo que não serve
mais e que me compunha antes. O amor tirou de mim tudo que era falta.
27 de jun. de 2012
Antes que seja tarde
Se não fosse tão covarde acho que o mundo seria um lugar melhor pra viver.
Não que o mundo dependa só de mim para ser melhor, mas se o medo não
fosse constante ajudaria as milhares de pessoas que agem pelo mundo como
centelhas tentando criar uma labareda que incendiasse de entusiasmo a
humanidade. Mas o que vejo refletido no espelho é um homem abatido
diante das atrocidades que afetam as pessoas menos favorecidas.
Porque se tivesse coragem não aceitaria as crianças passarem fome, frio e
abandono nas calçadas, essas que parecem fantasmas, nos assustam nos
semáforos com armas na mão, nos pedem esmolas amontoadas em escolas que
não ensinam, e por mais que elas chorem, somos imunes a essas lágrimas.
Você acha que se realmente tivesse coragem aceitaria uma pessoa
subjugar a outra apenas pela cor da sua pele? Do seu cabelo? Um poema é
quase nada disso tudo.
Sou um covarde diante da violência contra a
mulher, da violência do homem contra o homem que só no Brasil são 50000
deles arrancados à bala do nosso pacífico planeta. Que dizer da
violência contra os homossexuais que são apedrejados nas calçadas das
avenida elegantes?
E se tivesse mais fé na minha humanidade de
maneira alguma aceitaria que um Deus fosse melhor que o outro, mas sou
tão covarde que nem religião tenho, e minhas mãos que não rezam, já que
estão abertas, poderiam ajudar a construir um templo onde caberiam
todas elas, mas eu que não tenho fé nem em mim mesmo sou incapaz de
produzir esse milagre. De repartir o pão.
E porque os índios estão
tão longe da minha aldeia e suas flechas não atingem meus olhos nem meu
coração, não me importo que lhe tirem suas terras, sua alma, seus rios, e
analfabeto de solidariedade não sei ler sinais de fumaça, eles fazendo
guerra eu fumando o cachimbo da paz. Se tivesse um nome indígena seria
cachorro medroso.
Se fosse o tal ser humano forte que alardeio por
aí, não concordaria em aceitar famílias inteiras sem onde morar, vagando
em busca de terra, ou morando em barracos de madeiras indignas
pendurada nos morros, ou na beira de córregos. Não nasci na favela, mas
,eu coração é de madeira, fraco.
A lei condena um homem comum que
rouba outro homem comum e o enterra na masmorra moderna, mas nada faz
contra aquele político corruto que rouba milhares de pessoas apenas com
uma caneta, ou duas, e que de quatro em quatro anos a gente aperta-lhes a
mão, quando na verdade devíamos cuspir-lhes na cara. E eu como um juiz
sem martelo não faço nada além de condená-lo ao meu não voto. É pouco,
já que sei onde eles se entocam. A lei é cega, mas acho que lhe fizeram
transplante de órgãos numa dessas votações secretas.
Assisto a
falência da educação e o massacre contra os professores e sei que muitas
vezes o resultado de ensino de qualidade mínima é presídio de segurança
máxima, fico em silêncio quando a multidão desinformada pede redução da
maioridade penal, porém, mal ela sabe que se não educarmos nossas
crianças vão ter que prendê-las com 16 anos, depois 14, depois 12,
depois, não teremos mais crianças nas ruas. E elas, as ruas, serão tão
seguras que a gente vai sentir falta das crianças. Época em que os
brinquedos serão visitados nos museus.
Estão cortando as árvores,
cortand as árvore, cortan a árvore, cort árv, co á... madeiraaaaa! E
aceito a cara-de-pau dos donos das serras elétricas e sei que o machado
está nas minhas mãos. Depois fico abraçando o lago poluído quando na
verdade deveria estar mergulhado nele, assim como os peixes mortos.
Pagos os meus impostos e sei que eles não fazem nada com eles, ainda
assim faço propaganda da minha consciência tranquila. Desconfio que é
essa tal consciência tranquila que está acabando com o mundo.
Calado
assisto a falsa democracia deste país ilegal, sem alvará de
funcionamento e sem licença pra ser pátria, e me emociono com o hino
nacional cantado antes do jogo da seleção canarinho.
Perdoe-me por
apenas ser poeta, e ter apenas poemas como arma, ainda que ninguém me
diga, sei que isso é muito pouco, quase nada. O sangue que pulsa na veia
tinha que estar nos olhos.
O Mundo gosta das pessoas neutras, mas só respeita as que tem atitude. Se não posso mudar o mundo deveria a mudar a mim mesmo.
Acho que é isso que vou fazer agora.
Antes que seja tarde.
Sérgio Vaz
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