11 de fev. de 2013

Ahhh, Zé!

Sabe Zé, no começo doeu não sentir nada. Mas eu consegui. Eu não sinto nada. Nada. Nem pena do mundo eu consigo mais sentir. Minha pureza era linda, Zé, mas ninguém entendia ela, ninguém acolhia ela. Todo mundo só abusava dela. Agora ninguém mais abusa da minha alma pelo simples fato de que eu não tenho mais alma nenhuma. Já era, Zé. É isso que chamam de ser esperto? Nossa, então eu sou uma ninja. Bate aqui no meu peito, Zé? Sentiu o barulho de granito? Quebrou o braço, Zé? Desculpa. Hoje tem risada alta, tem festinha, tem maquiagem e música. O senhor promete que não me julga, Zé? Eu sei que você se atrapalha, liga aqui pra cima e fica até mudo. São tantos nomes, não é? Mas é só fazer que nem eu: chama todo mundo de “o outro”. Todos são outros. Porque o de verdade, Zé, o de verdade não existe. A gente chora, escreve lá umas poesias profundas, chora, mas um dia a gente acorda e descobre que esse aí não existe não. Amanhã é um novo dia. Um novo outro qualquer. Eu queria te dizer que eu sinto muito, Zé. Mas eu não posso te dizer isso porque a verdade é que eu não sinto mais nada. Nadinha, Zé.
Tati Bernardi.

5 de fev. de 2013

***

Uma permanência pautada de mentiras. História cega e fantasiosa de dois amantes que ardentemente se desejavam, mas teriam um fim. A luz que não existe, o livro que porta as folhas em branco e que não contarão a nossa fábula. O tempo que eu dediquei, todo à você, prazerosamente, sem pesar. A tua terra fértil, na qual jamais cheguei a pisar. O teu orgulho amedrontado e as tuas frases decoradas, esperando o momento oportuno para serem ditas e que nunca foram. As promessas irônicas balbuciadas com o teu tom arrogante. A corda que você colocou no meu pescoço e apertou, aos poucos, assistindo a minha agonia. A tentativa falha de derramar as lágrimas atravancadas na garganta e que insistem em não cair. A tua manha enganosa e embromada, ensaiada na frente do espelho. Por quantas vezes você mentiu? Venho tentando fugir da efetividade dos fatos, mas tudo ao meu redor desengana. Tudo é falso demais, miragem ou ilusão de óptica. A voz não sai, se perdeu nos teus braços longos e no teu colo acolhedor. Falsário. O meu silêncio você consegue ouvir? Não fala nada, qualquer palavra tua é desatino, corrói e eu me entrego. Apenas ouça do que o vácuo se alimenta, a ausência. Do som, do afeto, dos planos incoerentes e de tudo aquilo que tomou, para si, um fim

4 de fev. de 2013

OTM

Pra falar verdade, às vezes minto tentando ser metade do inteiro que eu sinto, pra dizer as vezes que às vezes não digo. Sou capaz de fazer da minha briga meu abrigo. Tanto faz não satisfaz o que preciso. Além do mais, quem busca nunca é indeciso; eu busquei quem sou; você, pra mim, mostrou que eu não sou sozinho nesse mundo. Cuida de mim enquanto não esqueço de você. Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser. Basta as penas que eu mesmo sinto de mim, junto todas, crio asas, viro querubim. Sou da cor, do tom, sabor e som que quiser ouvir. Sou calor, clarão e escuridão que te faz dormir. Quero mais, quero a paz que me prometeu. Volto atrás, se voltar atrás assim como eu.
O Teatro Mágico. 

22 de jan. de 2013

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Um dia você vai se lembrar de mim. Os números da sua agenda passarão claramente na sua frente e você não terá nenhum para discar. Talvez, até tente o meu, mas até lá posso não querer mais te atender ou talvez nem seja mais meu aquele número. Você vai tentar chamar alguém, mas não vai haver ninguém pra sair correndo e te dar um abraço, nem te colocar no colo ou acariciar seus cabelos até que o mundo pare de girar. Nessa fração de segundo, quando seus pés perderem o chão, você vai lembrar do meu carinho e do meu sorriso infantil. Virão súbitas memórias gostosas dos meus beijos e abraços, da minha preocupação quando você saía e esquecia de pegar a blusa de frio… E só terá uma música repetindo no seu rádio: a nossa doce sinfonia. Em um novo momento você vai sentir um aperto no peito, uma pausa na respiração, e vai torcer bem forte para ter o nosso mundinho de volta, mundinho difícil, mas cheio de amor e carinho. Vai ouvir a chuva cair e vai sentir um imenso vazio por não ter um grande amor pra compartilhar esse momento. Não terá alguém para brincar de se jogar na grama nos dias ensolarados, nem para admirar o pôr-do-sol sobre a ponte da pequena cidade. Talvez, nem consiga mais sentir o frescor do vento. O nome disso é saudade, aquilo que eu tinha tanto e te falava sempre. E quando você finalmente bater na minha porta, ela estará trancada, ou se aberta, mostrará uma casa vazia. Seus olhos te ensinarão o que são lágrimas, aquelas que eu te disse que ardiam tanto. E você vai lembrar dos carinhos nas costas pra você dormir, dos paninhos quentes pra aliviar sua dor de madrugada, da minha inocência que ria de tudo que você falava, do meu jeito bobo, do meu jeito de tentar te fazer feliz… O nome do enjoo que você vai sentir é arrependimento, e a falta de fome será a tristeza, a mesma que eu senti por tanto tempo. Um dia você irá se deitar, e quando olhar para o teto do quarto escuro, vai se lembrar que as estrelas poderiam estar lá, para iluminar todas as suas noites frias. Mas tudo o que você verá é a escuridão. Então quando os dias passarem e eu não te ligar, quando nada de bom te acontecer e ninguém te olhar com os meus olhos encantados… você encontrará a solidão. E você vai ver que diante de tudo isso, alguns dos meus defeitos poderiam ter sido perdoáveis. A partir daí, o que acontecerá chama-se surpresa. E provavelmente o remédio para todas essas sensações… é o tal do tempo em que você tanto falava!

18 de jan. de 2013

Poderia ser para vc...

Eu não ganho nada escrevendo pra você. Se alguém me pagasse um centavo por cada linha que contém seus traços, acredite, eu estaria milionária. O problema é que eu não ganho nada e, ainda assim, cismo em escrever - pra você, por você, com você. Palavras não vão te trazer de volta, eu sei. Não importa quantos parágrafos eu digite ou quantas estrofes eu rabisque no papel, nada nunca vai ter o tamanho e a intensidade do que eu quero te dizer. Nenhuma frase tem tanta ênfase na dor que eu quero expressar. Veja só, escrever não me deixa menos infeliz ou com mais vontade de viver. Escrever não te coloca novamente do meu lado ou ameniza a saudade que teima em arder. Mas, de certa forma, é escrevendo que eu encontro um pouco de conforto em dias tão vazios longe de ti. Talvez não seja as pontas dos meus dedos que te redigem, talvez seja você quem transforma as pontas dos meus dedos. Analise com atenção as palavras que cospem da minha boca e as que saltam no papel: todas elas contém um pouco de você, do que éramos, do que tínhamos, do que fomos, de nós dois. Não importa se é sobre os seus olhos castanho-mel, sobre o seu cabelo preto bagunçado ou sobre os seus lábios finos. Todos os meus textos disfarçados em versos, todas as minhas poesias camufladas em texto e todos os meus poemas com alma de frase são sobre você. Eu juro que tento, de verdade, escrever sobre qualquer outra coisa ou agarrar qualquer pensamento avulso que não envolva o teu cheiro, o teu caminhar e a tua gargalhada, mas é impossível. Se falo sobre o céu, diretamente também falo sobre como era bom passar as tardes de quinta-feira deitada na grama admirando os formatos das nuvens com você. Se rio de uma piada, automaticamente penso em como eu gostaria de contar ela pra você e ver o seu sorriso de 32 dentes esbranquiçados se aflorar. Percebe o tamanho da ironia? Eu não quero escrever, pensar ou falar de você, mas de certa forma você me escreve, me imagina e me forma. Você me desenha, me adivinha, me tem. Às vezes as palavras fluem com o sibilo do coração. Eu penso em te telefonar toda noite, dizer como foi meu dia e perguntar como foi o seu, como se nada tivesse acontecido, e ao invés disso escrevo. Escrevo porque sei que não aguentaria algo cara a cara, tipo, olho no olho. Escrevo mesmo sabendo que as probabilidades de você ler sejam mínimas. Escrevo porque pede o coração e insiste a alma. Eu te escrevo, te imagino e te formo. Eu te desenho e te adivinho, só não te tenho. Como já disse, não recebo por te compor, mas me dá uma força danada e preenche o coração de coisa boa. E preenche o coração de amor. Amor quietinho, que não exige palco e nem platéia. Amor simples. Amor que não cabe no verbo amar.

1 de jan. de 2013

Que dó!

Eu olho pra gente e dá um dó de saber que não volta mais. Nunca mais. Porque não. Dá uma agonia porque não vai ser de novo nunca mais. Porque só foi contigo e sempre vai ser só contigo. Ainda que não volte, que não seja mais a gente. Eu nunca vou deixar de ser você, eu nunca vou deixar de ser nós, Tom. Então as mãos vão se soltando, os laços desfazendo-se e eu olho pra mim e sinto o dobro de dó em saber que doeu em mim mais do que em qualquer pessoa que tenha achado a gente bonitinho demais pra acabar, que tenham acreditado, como a gente acreditou, que eramos feito pra durar. Porque eu sei que doeu em mim muito mais do que doeu até mesmo em você. E dá uma dorzinha lá no fundo, quase despercebida.. De eu ter sentido tanto pela gente e pra gente, sabe? e de pensar que foi 90% em vão, porque depois que acaba só se existe 10% de aproveitamento pelo que foi, e se foi. E por isso dá dó de termos sido tão pouco mesmo querendo ser aquilo multiplicado por um número cheio de reticências que por preguiça sua de calcular acabou sendo zero, ou ainda, -1. Dá dó de não ter aproveitado nem um tico mais do que quis. De ter sido tão e somente aquilo, sabe, que por mais feliz que tenha me feito, no fundo só foi um quase. Sempre o típico triângulo amoroso: eu, você e o quase. E quase demos passos a diante e seguimos, então quase alimentamos e construímos expectativas sinceras, e mais do que isso, ultrapassamo-as. Dá dó de ter sido tão limitada mesmo querendo ser tão demasiada. E tudo em relação ao que a gente era. Mas agora eu olho pra frente e não tem mais dó nenhum de ver que pode sim, ainda, ter alguma chance. Porque tu me disse uma vez e eu nunca vou esquecer, que era pra mim, sempre e somente pra mim, que tu sempre voltava.

7 de dez. de 2012

:(

Minha intenção nunca foi ir tão longe. Enquanto eu juntava as minhas coisas e tentava arrumar a bagunça do meu quarto, era isso que eu pensava. Você sabe, eu sempre te falei mil vezes que esse mundo quebra meus ossos de uma maneira insuportável e que eu não sou tão forte quanto pareço. O vento entrava freneticamente pela minha janela e eu estranhei, porque o meu quarto é o cômodo dessa casa que menos circula ar por alguma razão desconhecida. E pensando no vento, no mundo e em você, eu só conseguia pensar que não podia ter ido tão longe. Longe, no sentido de me afundar como se eu tivesse oxigênio suficiente para nunca subir à superfície. Eu me perdi tanto em você que esqueci que precisava respirar, precisava puxar ar com força. Mas minha convicção interior sempre me disse que segurar sua mão era o suficiente. Bobagem, isso é pura ficção melodramática. Segurar sua mão era o que eu mais queria, mas se eu não respirasse, eu só te puxaria para baixo comigo nesse desespero que toma conta das pessoas que estão se afogando.
Eu só consigo pensar nisso agora, antes eu estava cega demais para enxergar. Agora que você já disse não pensar tanto, meu peito fica meio corroído enquanto eu tento puxar o ar. Parece que existem bilhões de marimbondos picando cada pedaço do meu pulmão enquanto eu guardo minhas coisas e depois fico deitada abraçando aquele urso de pelúcia que tem o nome que você escolheu. Tem sido difícil respirar. O urso tem o meu cheiro e isso me dá vontade de chorar porque meu cheiro sempre foi o seu favorito e eu fico enjoada quando penso nas noites que o telefone ficava na cabeceira da cama e tudo que você queria era deitar e ver o Sol nascer. Em silêncio. Eu me sentia completa e você se sentia também. Eu sei porque você disse que essa é uma das melhores lembranças que você tem de nós. E eu ainda tenho tentado entender o que de tão errado que eu fiz para tirar os trilhos do trem. Fico repetindo nossos passos, correndo atrás de migalhas pelo caminho e minha mente me deixa tonta de tanto pensar. Eu nunca queria que tivesse passado. Achei que era para ficar. Porque aquela loucura do amor, aquela febre, aquela vontade de morrer de ciúmes e depois morrer de paixão, era aquilo que nos alimentava. E agora, sem nenhum pensamento pela manhã, sem nenhum plano ou declaração, nós estamos pisando descalços nesse chão cheio de cacos de vidro. E isso está me machucando muito.
Eu poderia te pedir para me pegar no colo e me colocar deitada na grama. Eu poderia e eu queria muito fazer isso. Mas eu não tenho direito disso mais. Não me sinto no direito de nada. Fico ouvindo sua respiração silenciosa como se você estivesse dizendo alguma coisa importante e agora, eu já não consigo mais dizer nada. Só fico quieta. Não quero te pedir para ficar, mas eu quero que você fique. Só que eu também não quero que continuemos andando nesse chão que já se sujou tanto com nosso sangue. Eu sinto uma fraqueza enorme enquanto eu olho para seu rosto pálido, sua boca vermelha e sua tristeza infinita. Eu não sei bem o que poderemos fazer. Não sei te libertar desses demônios que nos cercam, não sei destruir esse buraco-negro sozinha. Eu preciso da sua ajuda. Você precisa da minha também. Mas temos que atravessar esse caminho de cacos e depois procurar nosso pedacinho de ouro no meio do ferro-velho. Eu só faço metáforas ruins, mas está tudo dolorido.
Eu ainda quero nossa salvação.