15 de ago. de 2012

Não desligaaaaaaa!

Vou até o Japão. Falo sério, não desliga o telefone, não diz adeus agora, não estraga a minha súplica: não me corta na hora errada. Eu me cortei, você sabe. Cortei lá dentro, mais do que uma navalha poderia cortar. Cortei veia e artérias, esperanças e histórias… Eu te cortei. Nós nos cortamos. Não, não chora… Por favor. Eu não estou gastando dinheiro para chorarmos, mesmo que eu já tenha feito isso de graça por mil dias desde aquele último. Nós nos cortamos porque as pessoas são assim, erro de cálculo humano: elas se perdem e se cortam diariamente. Cortes internos de uma tal maneira que o médico semana passada disse que nunca me viu tão saudável. Ah, se ele soubesse… Você não pensa no curativo? Eu penso, todos os dias. Eu tentei alguns, vou confessar e, por favor, não quebre a caneta que você agora deve estar usando para riscar fervorosamente a folha na sua frente enquanto desconta a raiva da vida - de nós. Eu tentei com pessoas na minha cama, com bebidas e cigarros entre os dedos, com um quase namoro fracassado, com uma vida profissional bonita, com sonhos novos, com dias de mendigagem: eu tentei. O curativo nunca esteve em nada disso. Que coisa idiota eu ligar para falar de curativos, você tem razão de querer desligar. Mas não, ainda não desliga. O curativo sempre foi você. A caixinha de remédios da minha vida, e me perdoa o anti-romantismo, eu não sei acertar palavras de amor que não firam. Só que agora eu quero curar também. Deixar que você se cure dos meus maus, da minhas aventuras pela vida quando nós deveríamos ter largado nossas mãos lado a lado, e não nos largado. Deixa eu ser o antídoto para qualquer outro amor que vá te fazer perder tempo, porque você sabe, eu sei, o seu cachorro sabe, o meu peixei sabe: a gente não se desliga. Não é esse fio telefônico, a conta no fim do mês ou uma tecnologia qualquer, somos nós, simples como uma vida, desgraçados como o amor. Nós, estragando tudo para o arrependimento querer curar. Se eu for o seu curativo, posso até me curar por conta própria, mas eu quero te curar. Quero passar carinho onde a vida deixou hematomas. E curará, acredite. Você ainda está na linha? Ainda quer ouvir que andei achando nossas cartas? Quando foi que paramos de nos escrever? Ah, claro… Quando as palavras deixaram de serem ditas também em voz alta. Ficou muita coisa a ser escrita, feita e falada. Ficou uma vida - a minha - para ser preenchida - com a tua. Até falando eu tenho entrelinhas, não é? Você deve estar me odiando, como no primeiro dia quando eu derrubei o sorvete na sua blusa preferida. Você deve estar me odiando por não conseguir desligar, como no último dia quando nos ouvimos chorar até faltar luz aqui e a ligação cair. Você me tem na mão e eu não sei poetizar isso. Desculpa, amor, se eu me encho de palavras e te esqueço respirando. Você, apenas respirando, já cura os meus tempos ruins. Quer desligar? Eu sei que sim. O meu recado está dado: se você fugir para o Japão, eu vou até lá. Vou até a esquina, até a cidade vizinha, até o Equador, até o Japão! Eu vou indo, porque o meu mapa quem traça é você. A minha vida quem regula são as suas mãos. Você não entende… Agora pode desligar, se quiser. Quando me ouço falar também me pergunto onde está a minha lucidez, não é só você que me detesta. No meu fundo, no meu espaço perdido e ilógico, tão meu, eu desisti de entregar os espaços em branco e passar mais álcool no que a história deixou ardendo. Eu desisti de procurar nas pessoas um olhar apaixonado que somente o espelho pode me mostrar, porque sou eu, é o meu reflexo dizendo que eu moro em ti. Eu não vou ter dinheiro para pagar essa conta, gastei tudo comprando o telefone para te ligar. São tantas desordens em mim, pode balançar a cabeça e me reprovar. Em outra vida eu posso ter feito medicina e a gente nem sabe… Tanto faz, você desligará. É que, olha, eu senti saudades de me declarar…

11 de ago. de 2012

Você me pediu um cigarro

Você foi covarde. Seu amor é forte, seu corpo é fraco. Você foi covarde como tantas vezes fui por acreditar que a coragem viria depois. A coragem não vem depois. A coragem vem antes ou não vem. Não posso amaldiçoar sua covardia. Sua boca não é rápida como suas pernas para me agarrar. Minhas pernas não são tão rápidas quanto minha boca para lhe impedir. Você foi covarde. Pela gentileza de sempre dizer sim, repetidos sim, quando não estava ouvindo. Já desfrutei de sua covardia, ríspido recusá-la agora porque não me favorece. Porque não fui escolhido. Não aquecerei seu prato para servi-la. Não a ajudarei no parto. Não partirei. Serei aquele que deveria ter sido, enterrado sem morrer, o que desapareceu permanecendo perto. Sou seu constrangimento mais alegre. Sua ferida, seu feriado. Com o tempo, serei sua vontade de se calar. De se retirar da sala. Não conhecerá meus hábitos de puxar o café antes de ficar pronto. De abrir as venezianas como quem procura reunir os chinelos ao vento. Você foi covarde, ninguém iria compreendê-la. Hoje todos a compreendem, menos você mesma. Você não se compreende depois disso. O que é imenso é estreito. O que é infinito fecha. Até o oceano tem becos e ruas sem saída. Até o oceano. Sua esperança não diminui a covardia. Quer um conselho? Finge que a dor que sente é a minha para entreter sua dor. Saudades ficam violentas quando mudamos de endereço. Saudades ficam insuportáveis quando mudamos de sentido. Você confunde sacrifício com covardia. Compreendo. Eu confundo amor com loucura. Cada um tem seus motivos, sua maneira de se convencer que fez o melhor, fez o que podia. Você me avisou que não tinha escolha. Nunca teria escolha. Você foi educada com a vida, pediu licença, agradeceu os presentes. Confiou que a vida logo a entenderia. E cederia. Engoliu uma palavra para dormir. Não serei vizinho de seu sobrenome. Seus nomes esperam um único nome que ficou para trás. Você não desencarnou, não se encarnou, deixou sua carne parada nas leituras. Morrer é continuar o que não foi vivido. Vai me continuar sem saber. Você foi covarde. Com sua ternura pálida, seu medo de tudo, sua polidez em cumprir as promessas. Você não aprendeu a mentir. Tampouco aprendeu a dizer a verdade. O dia está escuro e não soprarei a luz ao seu lado. O dia está lento e não haverá movimento nas ruas. Você não revidou nenhuma das agressões, não revidará mais essa. Você foi covarde. A mais bela covardia de minha vida. A mais comovida. A mais sincera. A mais dolorida. O que me atormenta é que sou capaz de amar sua covardia. Foi o que restou de você em mim.
Fabrício Carpinejar em Você me pediu um cigarro