“Vou até o Japão. Falo sério, não desliga o
telefone, não diz adeus agora, não estraga a minha súplica: não me corta
na hora errada. Eu me cortei, você sabe. Cortei lá dentro, mais do que
uma navalha poderia cortar. Cortei veia e artérias, esperanças e
histórias… Eu te cortei. Nós nos cortamos. Não, não chora… Por favor. Eu
não estou gastando dinheiro para chorarmos, mesmo que eu já tenha feito
isso de graça por mil dias desde aquele último. Nós nos cortamos porque
as pessoas são assim, erro de cálculo humano: elas se perdem e se
cortam diariamente. Cortes internos de uma tal maneira que o médico
semana passada disse que nunca me viu tão saudável. Ah, se ele soubesse…
Você não pensa no curativo? Eu penso, todos os dias. Eu tentei alguns,
vou confessar e, por favor, não quebre a caneta que você agora deve
estar usando para riscar fervorosamente a folha na sua frente enquanto
desconta a raiva da vida - de nós. Eu tentei com pessoas na minha cama,
com bebidas e cigarros entre os dedos, com um quase namoro fracassado,
com uma vida profissional bonita, com sonhos novos, com dias de
mendigagem: eu tentei. O curativo nunca esteve em nada disso. Que coisa
idiota eu ligar para falar de curativos, você tem razão de querer
desligar. Mas não, ainda não desliga. O curativo sempre foi você. A
caixinha de remédios da minha vida, e me perdoa o anti-romantismo, eu
não sei acertar palavras de amor que não firam. Só que agora eu quero
curar também. Deixar que você se cure dos meus maus, da minhas aventuras
pela vida quando nós deveríamos ter largado nossas mãos lado a lado, e
não nos largado. Deixa eu ser o antídoto para qualquer outro amor que vá
te fazer perder tempo, porque você sabe, eu sei, o seu cachorro sabe, o
meu peixei sabe: a gente não se desliga. Não é esse fio telefônico, a
conta no fim do mês ou uma tecnologia qualquer, somos nós, simples como
uma vida, desgraçados como o amor. Nós, estragando tudo para o
arrependimento querer curar. Se eu for o seu curativo, posso até me
curar por conta própria, mas eu quero te curar. Quero passar carinho
onde a vida deixou hematomas. E curará, acredite. Você ainda está na
linha? Ainda quer ouvir que andei achando nossas cartas? Quando foi que
paramos de nos escrever? Ah, claro… Quando as palavras deixaram de serem
ditas também em voz alta. Ficou muita coisa a ser escrita, feita e
falada. Ficou uma vida - a minha - para ser preenchida - com a tua. Até
falando eu tenho entrelinhas, não é? Você deve estar me odiando, como no
primeiro dia quando eu derrubei o sorvete na sua blusa preferida. Você
deve estar me odiando por não conseguir desligar, como no último dia
quando nos ouvimos chorar até faltar luz aqui e a ligação cair. Você me
tem na mão e eu não sei poetizar isso. Desculpa, amor, se eu me encho de
palavras e te esqueço respirando. Você, apenas respirando, já cura os
meus tempos ruins. Quer desligar? Eu sei que sim. O meu recado está
dado: se você fugir para o Japão, eu vou até lá. Vou até a esquina, até a
cidade vizinha, até o Equador, até o Japão! Eu vou indo, porque o meu
mapa quem traça é você. A minha vida quem regula são as suas mãos. Você
não entende… Agora pode desligar, se quiser. Quando me ouço falar também
me pergunto onde está a minha lucidez, não é só você que me detesta. No
meu fundo, no meu espaço perdido e ilógico, tão meu, eu desisti de
entregar os espaços em branco e passar mais álcool no que a história
deixou ardendo. Eu desisti de procurar nas pessoas um olhar apaixonado
que somente o espelho pode me mostrar, porque sou eu, é o meu reflexo
dizendo que eu moro em ti. Eu não vou ter dinheiro para pagar essa
conta, gastei tudo comprando o telefone para te ligar. São tantas
desordens em mim, pode balançar a cabeça e me reprovar. Em outra vida eu
posso ter feito medicina e a gente nem sabe… Tanto faz, você desligará.
É que, olha, eu senti saudades de me declarar…”
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