25 de jun. de 2015

Nem tão fofa.

Eu preciso te dizer que eu não sou fofa. Todos aqueles corações foram mera empolgação inicial e o ato mais fofo do qual eu sou capaz, de fato, é este: ser honesta.
Sou dada às questões práticas da vida e provavelmente eu não vou me declarar todas as manhãs ou preparar o seu café, e vou te zoar sempre e bastante, talvez mais do que todos os seus amigos.
Eu preciso te dizer que eu sou louca na maioria das vezes e que sonho com crimes passionais e não acordo assustada. Que há algumas coisas que eu só conto ao espelho – as quais, consequentemente, você não saberá. E que eu não sou o tipo de pessoa que gosta de receber flores ou declarações de amor quilométricas – me faz mais feliz que você cozinhe pra mim ou se lembre da gente numa canção.
Eu vou observar muito quase tudo. Desde a sua ortografia ao modo como você se comportava com as suas ex-namoradas, e, involuntariamente, eu submeto as pessoas a testes diários de personalidade.
Você precisa saber que algumas vezes eu estou de saco cheio demais pra me importar – aliás, todo mundo fica assim de vez em quando, mas eu admito desde já para que, quem sabe, não haja reclames. E que eu posso tomar um tarja preta e dormir num sábado à noite se eu sentir vontade.
É conveniente que você saiba que eu julgo as pessoas silenciosamente e isso inclui você. E que eventualmente eu preciso me isolar e isso pode te fazer pensar que é culpa sua – e talvez eu também pense que sim de vez em quando, mas na verdade não.
Fique, mas saiba: eu não vou sorrir pro seu melhor amigo se ele for chato. E eu te direi isso. E que eu sou daquele tipo que ama demais, sente demais, julga demais e fala de menos e, acredite, isso não é uma qualidade. Corra enquanto há tempo.

17 de jun. de 2015

A descoberta do amor

Haveria ela, naquele dia encontrar o esperado amor, sentada em frente à penteadeira escovava calmamente os seus belos cabelos longos e negros, admirava-se ao espelho, mas a imagem que refletia não era a sua. Ele caminhava lentamente ao seu encontro e sorria radiante e admirado ao vê-la. A relva verde reluzia sob o sol da tarde, os Jacarandás exibiam as suas exuberantes cores já nos primeiros dias da primavera. Ela sorria e o seu olhar perdido no fundo do espelho denunciava toda a sua alegria e encantamento.

Ela estava amando. Definitivamente ela estava amando.

- Meu Deus! Então é assim que é o amor - pensou ao retornar de seu lindo sonho.

Admirou-se mais uma vez no espelho, borrifou o seu melhor perfume no pescoço, nos pulsos e entre os seios. Levantou-se e saiu em silêncio do quarto.

Ao passar pela sala ajeitou as rosas amarelas no vaso, olhou pela janela e ajeitou as cortinas cuidadosamente. Tudo deveria ser perfeito naquele dia. Antes de abrir a porta e sair de casa refez todos os seus passos, certificando-se de que realmente não se esquecera de nada.

16 de jun. de 2015


E a cada suspiro, meus poucos se atrapalham: estou feliz ou com medo?
Estou cansada ou excitada?
Estou carente ou encantada?
Estou fria ou fugidia?
Numa única noite eu fui um pouco tudo, eu quis um pouco de tudo.
Quando alguém vai acompanhar meu ritmo?
Eu quis que ele não soubesse meu nome, depois quis ter o dele logo depois do meu.
Eu quis que ninguém soubesse de tamanha traição.
Depois quis gritar na janela como o proibido era sopro no meu coração.
Eu quis sentir o poder de abalar com a vida dele.
Depois quis que ele voltasse direitinho pra casa e esquecesse que existe a fraqueza.
Eu quis ele por uma aventura, uma risada, uma distração.
Depois quis o colo dele para sempre, mas fiquei com o meu pouco puta estampado na cara.
Como eu preciso ser amada meu Deus, pra parar de dar de bandeja o meu sorriso por aí.
Eu tenho meu pouco criança estampado em cada linha que escrevo e em cada bobeira que falo na espera de atenção.
Maluca?
Nas raras vezes que sou séria, me sinto tão maluca, que devo ser sempre maluca.
De pouco em pouco encho o papo de ansiedade.
Quando o muito virá?
Eu nunca poderia ser feliz sem meu pouco trágica.
Eu nunca posso estar satisfeita sem meu pouco idealista e eu nunca poderei ser mulher porque ainda falta pouco, muito pouco, mas eu sei que sempre faltará.
Me completo de poucos, mas sigo esperando demais de tudo.
Comida para cada um desses poucos que são buracos na minha alma.
Meu pouco puta, safada, tarada, não tem um pingo de compostura.
Meu pouco criança sofre e se diverte com o meu pouco louca.
Meu pouco adulta perdoa tudo porque tem total consciência do meu pouco criança.
Mas cada pouco espera o grande momento.
A grande virada.
O longo suspiro de paz.
Cada pouco espera o colo, a excelente trepada, o beijo silenciador de neuroses, o abraço aquecedor de angústias.
Cada pouca criatividade espera o salário digno, o carro novo, o cheiro de cada coisa minha conquistada, o sono de quem não deve um centavo a ninguém.
Corro no desespero desses dias, da vida que virá, dos sonhos realizados, da felicidade, do sorriso banguelo da pureza infinita de um ser gerado por mim.
Da luz.
Meu pouco pessimista sabe que nada disso pode acontecer.
Mas sigo com meu pouco otimista, aprendendo que ele a cada dia aumenta um pouco.
Quem em cada pouco põe tudo que é merece ser feliz.
E muito.

A diferença.

Amores são como anéis. Ainda mais se você pensar na frase “vão-se os anéis ficam os dedos”, não é?
E tudo o que eu quero deles é a honestidade. Nada pior do que um anel de vidro que tenta se passar por diamante, como uma paixão ilusória disfarçada de amor verdadeiro. Bijuteria ou joia. Quer saber? Nenhum dos dois é melhor do que o outro. São coisas completamente diferentes com algo em comum: eles são honestos. O anel de diamante vai durar para sempre, se você topar bancar o alto investimento. Já o anel de vidro vai deixar claro sua qualidade frágil e efêmera.
Se apaixonar pelo anel de vidro é simples e até libertador. A gente sabe exatamente o que vai levar. O mesmo anel vai desfilar por aí com mais 2.349 mulheres. Tudo bem, ele não nos prometeu exclusividade. Ele vai permanecer brilhante quase uma estação inteira e, ao final do outono, a cor já vai ter desbotado e a pedra estará arranhada. O fim do inverno é também o fim daquele anel (ou seria amor?) que, na primeira queda ao chão, se espatifou em mil pedaços. Ele pode até ter cortado a pele de raspão e feito sangrar por alguns minutos. Mas tudo bem, a gente sabia que não iria durar muito. Aquele anel não vinha com a promessa de nos acompanhar por anos em aventuras desvairadas, noites insones de inverno ou dias preguiçosos sob o sol. Muito menos vinha com a proposta de amor eterno. A gente sabia que era passageiro. Coisa de momento que se transformaria em uma linda memória.
Dor mesmo é acreditar na ilusão do diamante que, no final das contas, era de mentira. É aquele que nos engana, nos faz de boba, brinca com a gente. Nos faz investir todo tempo e esforço para conquistar aquele brilho, aparentemente, inapagável. O diamante (e o amor) de mentira vai nos virar do avesso, nos fazer sentir especial até darmos os primeiros passos com ele e perceber que ele desfila com mais duas mulheres na festa, também iludidas pela exclusividade que ele prometeu. E percebemos que não somos a única. E nem a mais estilosa, afinal, vamos admitir, ele combina muito mais com a morena tatuada de cabelos curtos do que com a gente.
Entre joias ou bijuterias, prefiro aquilo que não imita nada. Aquilo que é exatamente o que se propõe. Porque tem dias que um anel descartável ou um amor passageiro é tudo que a gente precisa. E outros que o investimento vale a pena para levar um companheiro de aventuras ao nosso lado, entrelaçado em nossos dedos pelo resto de uma vida ou, pelo menos, grande parte dela.

9 de jun. de 2015

Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?

PAULO LEMINSKI

Simplesmente aconteceu
Não tem mais você e eu
No jardim dos sonhos
No primeiro raio de luar
Simplesmente amanheceu
Tudo volta a ser só eu