
Más, muito más, pra quem tinha a reciprocidade. Os olhares trocados, as promessas renovadas de encantamento eterno. Eu amo, e sou correspondida! O céu, a terra, os passarinhos, etc. Os apelidinhos, as coincidências cheias de cumplicidade, (Ahhhhhhhhhh!!! Não me diga que você também espirra quando está resfriado! Que você também não gosta de abobrinha recheada, e também dorme de lado! Que legal!!!!) O frio na barriga, a felicidade estonteante, boa, boa, cheia de perspectivas, para nossa imensa tristeza, escorrendo pelo ralo junto com os produtos de limpeza, as implicâncias cotidianas e as contas a pagar. Puf. E de repente, do sangue do outro que se perdeu na nossa veia, de não saber onde eu termino e onde o outro começa, de sorrir e sentir o sorriso do outro no nosso próprio rosto, não mais que de repente, ele se discrimina. Descola. Ele vira OUTRO, e com sorte, alguém de quem a gente continua gostando muito.
Boas pra quem se vê apaixonado sozinho, chances de reciprocidade reduzidas a zero , o oceano de perspectivas maravilhosas tornado, sem atenuantes, o abismo da auto-consciência do absurdo. Pé na beira desse abismo, a paixão se transforma num inseto zumbindo todos os dias no seu ouvido, e quanto mais você pede pra ele desaparecer, mais ele zumbe. Você se sente mal, pego em flagrante desejando ardentemente alguém quem tem dificuldade até pra lembrar como é mesmo o seu nome, e sem nunca ter sido religioso, se pega rezando todos os dias pra ela acabar. Faz promessas pra santos que você nem suspeitava que existiam. Faz equações complicadíssimas, provando por A+B que ela não existe. E ela zumbe, zombeteira. Tudo inútil e desnecessário, porque todo mundo sabe: ela acaba. O tempo se encarrega dela, com ou sem suas orações e equações. E quando acaba, você olha pra sombra do que ela era entre aliviado e triste: lá está o encanto desencantado, o outro re-humanizado, nem príncipe nem sapo, os perfumes inebriantes tranformados em, vá lá, cheiros agradáveis, a vida com a intensidade reduzida, e você prometendo que de hoje em diante só se apaixona por idéias, causas, e no campo do tangível, no máximo por vinhos italianos.
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