“Eu não ganho nada escrevendo pra você. Se alguém me
pagasse um centavo por cada linha que contém seus traços, acredite, eu
estaria milionária. O problema é que eu não ganho nada e, ainda assim,
cismo em escrever - pra você, por você, com você. Palavras não vão te
trazer de volta, eu sei. Não importa quantos parágrafos eu digite ou
quantas estrofes eu rabisque no papel, nada nunca vai ter o tamanho e a
intensidade do que eu quero te dizer. Nenhuma frase tem tanta ênfase na
dor que eu quero expressar. Veja só, escrever não me deixa menos infeliz
ou com mais vontade de viver. Escrever não te coloca novamente do meu
lado ou ameniza a saudade que teima em arder. Mas, de certa forma, é
escrevendo que eu encontro um pouco de conforto em dias tão vazios longe
de ti. Talvez não seja as pontas dos meus dedos que te redigem, talvez
seja você quem transforma as pontas dos meus dedos. Analise com atenção
as palavras que cospem da minha boca e as que saltam no papel: todas
elas contém um pouco de você, do que éramos, do que tínhamos, do que
fomos, de nós dois. Não importa se é sobre os seus olhos castanho-mel,
sobre o seu cabelo preto bagunçado ou sobre os seus lábios finos. Todos
os meus textos disfarçados em versos, todas as minhas poesias camufladas
em texto e todos os meus poemas com alma de frase são sobre você. Eu
juro que tento, de verdade, escrever sobre qualquer outra coisa ou
agarrar qualquer pensamento avulso que não envolva o teu cheiro, o teu
caminhar e a tua gargalhada, mas é impossível. Se falo sobre o céu,
diretamente também falo sobre como era bom passar as tardes de
quinta-feira deitada na grama admirando os formatos das nuvens com você.
Se rio de uma piada, automaticamente penso em como eu gostaria de
contar ela pra você e ver o seu sorriso de 32 dentes esbranquiçados se
aflorar. Percebe o tamanho da ironia? Eu não quero escrever, pensar ou
falar de você, mas de certa forma você me escreve, me imagina e me
forma. Você me desenha, me adivinha, me tem. Às vezes as palavras fluem
com o sibilo do coração. Eu penso em te telefonar toda noite, dizer como
foi meu dia e perguntar como foi o seu, como se nada tivesse
acontecido, e ao invés disso escrevo. Escrevo porque sei que não
aguentaria algo cara a cara, tipo, olho no olho. Escrevo mesmo sabendo
que as probabilidades de você ler sejam mínimas. Escrevo porque pede o
coração e insiste a alma. Eu te escrevo, te imagino e te formo. Eu te
desenho e te adivinho, só não te tenho. Como já disse, não recebo por te
compor, mas me dá uma força danada e preenche o coração de coisa boa. E
preenche o coração de amor. Amor quietinho, que não exige palco e nem
platéia. Amor simples. Amor que não cabe no verbo amar.”
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