Uma permanência pautada de mentiras. História cega e
fantasiosa de dois amantes que ardentemente se desejavam, mas teriam um
fim. A luz que não existe, o livro que porta as folhas em branco e que
não contarão a nossa fábula. O tempo que eu dediquei, todo à você,
prazerosamente, sem pesar. A tua terra fértil, na qual jamais cheguei a
pisar. O teu orgulho amedrontado e as tuas frases decoradas, esperando o
momento oportuno para serem ditas e que nunca foram. As promessas
irônicas balbuciadas com o teu tom arrogante. A corda que você colocou
no meu pescoço e apertou, aos poucos, assistindo a minha agonia. A
tentativa falha de derramar as lágrimas atravancadas na garganta e que
insistem em não cair. A tua manha enganosa e embromada, ensaiada na
frente do espelho. Por quantas vezes você mentiu? Venho tentando fugir
da efetividade dos fatos, mas tudo ao meu redor desengana. Tudo é falso
demais, miragem ou ilusão de óptica. A voz não sai, se perdeu nos teus
braços longos e no teu colo acolhedor. Falsário. O meu silêncio você
consegue ouvir? Não fala nada, qualquer palavra tua é desatino, corrói e
eu me entrego. Apenas ouça do que o vácuo se alimenta, a ausência. Do
som, do afeto, dos planos incoerentes e de tudo aquilo que tomou, para
si, um fim