Ahhh, Zé!
“Sabe Zé, no começo doeu não sentir nada. Mas eu
consegui. Eu não sinto nada. Nada. Nem pena do mundo eu consigo mais
sentir. Minha pureza era linda, Zé, mas ninguém entendia ela, ninguém
acolhia ela. Todo mundo só abusava dela. Agora ninguém mais abusa da
minha alma pelo simples fato de que eu não tenho mais alma nenhuma. Já
era, Zé. É isso que chamam de ser esperto? Nossa, então eu sou uma
ninja. Bate aqui no meu peito, Zé? Sentiu o barulho de granito? Quebrou o
braço, Zé? Desculpa. Hoje tem risada alta, tem festinha, tem maquiagem e
música. O senhor promete que não me julga, Zé? Eu sei que você se
atrapalha, liga aqui pra cima e fica até mudo. São tantos nomes, não é?
Mas é só fazer que nem eu: chama todo mundo de “o outro”. Todos são
outros. Porque o de verdade, Zé, o de verdade não existe. A gente chora,
escreve lá umas poesias profundas, chora, mas um dia a gente acorda e
descobre que esse aí não existe não. Amanhã é um novo dia. Um novo outro
qualquer. Eu queria te dizer que eu sinto muito, Zé. Mas eu não posso
te dizer isso porque a verdade é que eu não sinto mais nada. Nadinha,
Zé.”
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